quinta-feira, 18 de março de 2010

'Contra a covardia, em defesa do Rio' virou 'Contra o Rio, em defesa da covardia'

Só pode ser essa a conclusão de quem lê os jornais do Rio de hoje, porque nenhum deles critica a postura covarde do governador Sérgio Cabral, que se omitiu, calou-se e deixou que a manifestação política contra a emenda Ibsen Pinheiro e a favor dos direitos do Estado do Rio de Janeiro se transformasse apenas em uma festa. A multidão que foi até lá queria mais. Saber, por exemplo, o que o governador pretende fazer para virar o jogo. Se fosse apenas para ver um show, não haveria tanta gente na caminhada, debaixo de uma chuva forte e constante, que veio da Candelária até a Cinelândia, onde estava montado um palco. No entanto, a imprensa chapa branca do Rio de Janeiro chega a comparar a manifestação de ontem com a histórica manifestação a favor das Diretas, de 1984, que reuniu mais de um milhão de pessoas. Além do despropósito numérico, há o histórico: naquela manifestação, os políticos deram sua mensagem em favor da emenda Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições diretas para Presidente da República. Ninguém pode nem imaginar o Sr. Diretas, deputado Ulisses Guimarães, repetindo as palavras que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, por determinação do governador Sérgio Cabral, disse ontem:
- Vamos fazer uma festa com a cara do nosso povo. Libera DJ!E foram essas as únicas palavras que as autoridades dirigiram ao público. Cabral preferiu se reunir mais tarde com a imprensa no Palácio Pedro Ernestro, porque ali estava entre amigos. Disse que não houve discursos a pedido do governador Paulo Hartung, como se isso servisse de álibi. O anfitrião era ele. O estado que mais perde é o nosso. Não se sabe quantos milhares ou milhões de reais foram torrados nessa que seria uma manifestação política em defesa dos direitos do Estado do Rio, mas vai acabar lembrada como a famosa Batalha de Itararé, aquela que não houve. A ex-governadora e atual prefeita de Campos,
Rosinha Garotinho, ficou indignada:
- As pessoas vieram aqui para ouvir as autoridades e as autoridades não falaram. Eu não trouxe cerca de 10 mil pessoas de Campos em mais 150 ônibus para ver show. As pessoas queriam ouvir o clamor das autoridades.E esse sentimento de decepção não se restringiu à prefeita de Campos, que também é presidente da Organização dos Municípios Produtores de Petróleo (OMPETRO), Rosinha Garotinho. Segundo
reportagem de Isabela Bessa para a Rede Gazeta do Espírito Santo, o que deveria ser uma manifestação política se transformou num oba-oba: Entre alguns grupos, a festa foi apelidada de "royalty folia". O apelido surgiu também pelo fato de as autoridades e artistas usarem pulseiras de cores diferentes, que permitiam acessos a alguns espaços privilegiados, ao palanque principal e a um cordão de isolamento feito na avenida para acomodar as personalidades.

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